Ultraprocessados na infância

Ultraprocessados na infância: entenda por que o problema vai além das escolhas das famílias e como o ambiente influencia muito a alimentação das crianças hoje.

NUTRIÇÃO

Rachel Francischi & Ana Federici

4/3/20264 min read

Nos últimos anos, tornou-se cada vez mais comum atribuir a piora da alimentação infantil a uma suposta falta de informação ou de cuidado das famílias — como se as escolhas alimentares fossem decisões individuais, tomadas de forma isolada do contexto em que essas famílias vivem.

Mas essa explicação é simplista — e, mais do que isso, injusta.

Um estudo recente do UNICEF, publicado em março de 2026, propõe uma mudança importante de perspectiva: o consumo crescente de ultraprocessados na infância está profundamente relacionado ao ambiente social, econômico e cultural, que muitas vezes limita — e condiciona — essas escolhas.

Essa mudança de olhar é essencial para quem deseja, de fato, compreender e transformar a alimentação infantil.

Uma mudança silenciosa no perfil nutricional das crianças

O Brasil vive, há mais de 25 anos, uma transformação significativa no padrão de saúde infantil.

A obesidade já superou a desnutrição como principal forma de má nutrição entre crianças e adolescentes — um marco que revela muito sobre como nossa relação com a comida mudou.

Entre 2000 e 2022, o excesso de peso nessa faixa etária passou de 18% para 36%.

Esse dado não deve ser interpretado apenas como um número isolado, mas como reflexo de transformações mais amplas:

  • mudanças nos modos de vida

  • alterações nos sistemas alimentares

  • crescimento dos ambientes urbanos

  • aumento das desigualdades sociais

Especialmente nos grandes centros, convivemos com alta oferta de ultraprocessados, redução de espaços para brincar e limitações reais à atividade física.

Ultraprocessados: quando deixam de ser exceção e viram rotina

Dentro desse cenário, os alimentos ultraprocessados deixaram de ocupar um espaço ocasional e passaram a fazer parte da rotina alimentar.

O estudo mostra que cerca de 50% das crianças consumiram ultraprocessados no dia anterior à pesquisa. Isso não indica apenas consumo — indica normalização.

Esses produtos oferecem algo que, no cotidiano, se torna decisivo: praticidade.

  • são fáceis de acessar

  • rápidos de preparar

  • muitas vezes mais baratos

  • amplamente disponíveis

Por isso, é importante reconhecer: em muitos casos, o consumo de ultraprocessados não representa uma escolha deliberada — mas a opção possível dentro de um contexto limitado

Famílias querem acertar — e isso muda tudo

Um dos pontos mais importantes do estudo é mostrar que a maioria das famílias está, sim, preocupada com a alimentação das crianças e deseja oferecer o melhor.

Esse dado muda completamente a narrativa. O problema não está na falta de intenção — mas nas condições reais em que essas escolhas são feitas.

Quando consideramos:

  • sobrecarga de tarefas

  • falta de tempo

  • restrições financeiras

fica mais claro por que a praticidade dos ultraprocessados ocupa um espaço tão relevante no dia a dia.

Quando o “saudável” é definido pela indústria

Além das barreiras práticas, existe outro fator central: a desinformação. O estudo mostra que muitos responsáveis consideram como opções saudáveis, produtos como:

  • iogurtes com sabor

  • nuggets preparados na air fryer


Isso revela uma distorção importante na percepção de qualidade alimentar. Esse cenário não acontece por acaso. Ele é resultado de estratégias consistentes de marketing, que associam esses produtos a ideias de:

  • saúde

  • praticidade

  • adequação para crianças


dificultando a distinção entre alimentos in natura e ultraprocessados.

Um ambiente que favorece o ultraprocessado

Todos esses fatores se organizam dentro do que chamamos de ambiente obesogênico — um contexto que favorece escolhas menos saudáveis e dificulta o acesso a alternativas melhores.

Vivemos em um cenário em que:

  • ultraprocessados estão amplamente disponíveis

  • são fortemente promovidos

  • se encaixam facilmente na rotina


Enquanto isso, a comida de verdade exige:

  • mais tempo

  • mais planejamento

  • muitas vezes maior custo


Diante disso, torna-se difícil sustentar a ideia de que a alimentação infantil depende apenas de escolhas individuais.

Impactos que começam cedo — e permanecem

A literatura científica é consistente ao associar o consumo frequente de ultraprocessados a:

  • obesidade

  • diabetes tipo 2

  • doenças cardiovasculares

  • maior prevalência de depressão


Na infância, esse impacto é ainda mais relevante.

A exposição precoce a alimentos hiperpalatáveis interfere diretamente na formação do paladar, reduzindo a aceitação de alimentos in natura e estabelecendo padrões alimentares que tendem a persistir ao longo da vida.

👉 Esse processo de construção do comportamento alimentar começa muito cedo — como explicamos em introdução alimentar: o que o bebê deve comer.

O que o estudo propõe — e o que ainda falta

O relatório do UNICEF não apenas descreve o problema — ele também aponta caminhos importantes:

  • regulação da publicidade infantil

  • medidas fiscais sobre ultraprocessados

  • fortalecimento da alimentação escolar

  • ampliação da educação alimentar

Mas existe um ponto central: não falta evidência — falta implementação.

Enquanto isso, o ambiente segue favorecendo o consumo desses produtos, e a responsabilidade continua sendo atribuída, de forma desproporcional, às famílias.

Precisamos falar de ambiente — não apenas de escolhas

Se quisermos transformar a alimentação infantil, precisamos ampliar o foco da discussão.

Não basta orientar, informar ou prescrever.

É necessário olhar para o contexto em que essas escolhas acontecem — e reconhecer que saúde não se constrói apenas no nível individual.

Promover alimentação saudável envolve:

  • políticas públicas

  • organização social

  • construção de ambientes mais favoráveis

A experiência como parte da solução

Nesse cenário, iniciativas que aproximam crianças e famílias da comida de verdade ganham ainda mais relevância.

No NaCaZinha, acreditamos que a transformação acontece na prática. Mais do que informar, criamos experiências reais com os alimentos:

  • preparo culinário

  • contato sensorial

  • construção de vínculo com a comida


👉 É esse o caminho que norteia programas como o Aprendiz Bem Nutrido, onde a criança aprende fazendo.

Porque mudanças alimentares não acontecem apenas a partir de recomendações.

Elas acontecem quando o alimento volta a fazer sentido — quando é vivido, compartilhado e incorporado à rotina.

Uma mudança de pergunta: talvez seja hora de mudar a pergunta que orienta essa discussão.

Em vez de questionar apenas o que a criança está comendo, precisamos olhar para o contexto em que essa alimentação acontece.

Porque, enquanto tratarmos a alimentação infantil como uma responsabilidade exclusivamente individual, continuaremos produzindo culpa — e não mudança.

Promover saúde, especialmente na infância, é um compromisso coletivo.

E exige, mais do que nunca, que o ambiente esteja à altura dessa responsabilidade.

Quer ler o relatório na íntegra? Clique em:
https://www.unicef.org/brazil/relatorios/ultraprocessados-e-infancia