Canela faz bem? Benefícios, riscos e mitos
Entre o aroma que perfuma bolos e as promessas milagrosas da internet, vale separar o que é evidência do que é mito — inclusive quando o assunto é canela, criança e gestação.
ALIMENTAÇÃO
Ana Federici & Rachel Francischi
7/5/20267 min read


A canela é uma das especiarias mais estudadas do mundo. Sabemos hoje que ela contém compostos bioativos com potencial para beneficiar a saúde, mas a ciência também mostra que seus efeitos são modestos e dependem do contexto de uma alimentação saudável. O desafio é separar o que é evidência científica do que é mito disseminado nas redes sociais.
Muito além do aroma que perfuma bolos, frutas e preparações caseiras, a canela é utilizada há séculos na culinária e na medicina tradicional de diferentes culturas. Nas últimas décadas, pesquisadores passaram a investigar seus possíveis efeitos sobre a glicemia, a saúde cardiovascular, a inflamação e o estresse oxidativo. Os resultados são interessantes, mas também exigem cautela na interpretação.
O que faz da canela uma especiaria especial?
A canela é rica em compostos bioativos, entre eles o cinamaldeído, responsável pelo seu aroma característico, além de diversos polifenóis com ação antioxidante.
Estudos mostram que esses compostos apresentam propriedades antioxidantes, anti-inflamatórias e antimicrobianas. Em pessoas com diabetes tipo 2, alguns ensaios clínicos observaram pequenas reduções da glicemia de jejum e discretas melhoras na sensibilidade à insulina e no perfil lipídico (Allen et al., 2013). No entanto, esses efeitos são modestos, heterogêneos entre os estudos e sempre ocorreram como complemento ao tratamento convencional, nunca como substituição da alimentação equilibrada, da atividade física ou dos medicamentos (revisões e meta-análises de ECRs, 2013–2023).
Além disso, a maior parte das pesquisas utilizou cápsulas ou extratos padronizados de canela, e não simplesmente a especiaria adicionada aos alimentos. Portanto, não podemos assumir que polvilhar canela na fruta ou no café produzirá os mesmos resultados observados nos estudos.
A canela emagrece?
Essa talvez seja uma das maiores fake news relacionadas à alimentação.
Até o momento, não existem evidências científicas consistentes de que a canela acelere o metabolismo, queime gordura ou provoque emagrecimento de forma significativa. Ela pode ser uma aliada dentro de um padrão alimentar saudável, mas não existe alimento isolado capaz de promover perda de peso.
Existem diferentes tipos de canela?
Sim. Embora existam quatro espécies comerciais importantes no mundo, o consumidor brasileiro encontra principalmente dois grupos.
O primeiro é a canela-do-Ceilão (Cinnamomum verum), também conhecida como "canela verdadeira". O segundo é o grupo das chamadas cássias, que inclui espécies originárias da China, Indonésia e Vietnã.
Do ponto de vista culinário, todas apresentam aroma agradável e compostos bioativos semelhantes. A principal diferença está na concentração de uma substância chamada cumarina: as cássias contêm bem mais cumarina do que a canela-do-Ceilão, que apresenta apenas traços (BfR, 2012).
O que é a cumarina?
A cumarina é um composto natural produzido pela planta como mecanismo de defesa contra fungos, insetos e outros agentes do ambiente.
Ela não representa um problema nas quantidades normalmente utilizadas na culinária. Entretanto, quando consumida em excesso e de forma contínua, principalmente por meio das espécies do grupo cássia ou de suplementos concentrados, pode aumentar o risco de lesão hepática em pessoas mais suscetíveis — um efeito que costuma ser reversível (BfR, 2012).
Por esse motivo, a Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos estabeleceu uma ingestão diária tolerável de 0,1 mg de cumarina por quilo de peso corporal (EFSA, 2008).
Isso não significa que consumir canela ocasionalmente acima desse limite cause intoxicação. Trata-se de um valor de segurança para consumo diário e prolongado, construído com ampla margem de proteção.
Crianças podem consumir canela?
Sim.
A canela utilizada como tempero em frutas, mingaus, aveia, vitaminas, bolos caseiros ou outras preparações faz parte de uma alimentação saudável e pode contribuir para ampliar o repertório de sabores da criança.
Além do sabor agradável, as especiarias ajudam a desenvolver o paladar e podem reduzir a necessidade de adicionar açúcar às preparações.
Entretanto, é importante lembrar que crianças têm menor peso corporal. Isso significa que, proporcionalmente, atingem a ingestão máxima recomendada de cumarina com quantidades menores do que os adultos (BfR, 2012).
Na prática, isso não deve ser motivo de preocupação para quem utiliza canela apenas como ingrediente culinário. O cuidado é evitar exageros, modismos e o uso rotineiro de grandes quantidades ou suplementos à base de canela em crianças.
Para famílias que utilizam canela diariamente, a canela-do-Ceilão é uma opção interessante por apresentar concentrações muito menores de cumarina.
Gestantes podem consumir canela?
Esse é um dos maiores mitos relacionados à alimentação na gestação.
É muito comum ouvir que "canela é abortiva" e, por isso, deveria ser completamente evitada durante a gravidez. Essa afirmação não é sustentada pelas evidências científicas quando falamos do consumo culinário.
Até o momento, não existem evidências de que o uso habitual da canela como especiaria na alimentação provoque aborto ou aumente o risco de perda gestacional (NCCIH/NIH).
O que existe são estudos experimentais com doses muito elevadas de extratos ou compostos isolados, frequentemente em modelos animais, que não podem ser extrapolados para o uso culinário em seres humanos.
Assim como acontece com diversos fitoterápicos e suplementos, a recomendação durante a gestação é evitar o uso de cápsulas, extratos concentrados e produtos com altas doses de canela, principalmente porque não existem estudos suficientes demonstrando sua segurança (NCCIH/NIH).
Já o uso da canela em preparações culinárias — como frutas, mingaus, aveia, bolos ou outras receitas — é considerado seguro para gestantes saudáveis quando consumido com moderação.
Então, vale a pena consumir canela?
Sem dúvida.
A canela é uma especiaria saborosa, versátil e rica em compostos bioativos. Pode enriquecer o sabor das preparações, favorecer a redução do açúcar adicionado em algumas receitas e contribuir para uma alimentação mais variada.
No entanto, é importante evitar tanto o exagero quanto as promessas milagrosas.
Nenhum alimento isolado previne ou trata doenças sozinho. Os maiores benefícios para a saúde continuam vindo de um padrão alimentar equilibrado, rico em frutas, verduras, legumes, grãos integrais, leguminosas, oleaginosas e outras ervas e especiarias.
Nesse contexto, a canela pode, sim, ser uma excelente aliada — especialmente quando usada para tornar a alimentação mais saborosa e natural desde a infância.
Porque, no fim das contas, não é uma colher de canela que transforma a saúde, mas o conjunto das escolhas que fazemos todos os dias.
Temperar é ensinar o paladar
Usar canela e outras especiarias para dar sabor — no lugar do açúcar — é uma das formas mais concretas de ampliar o repertório de uma criança. E repertório se constrói com experiência: cheirando, provando, cozinhando.
É isso que acontece no Aprendiz Bem Nutrido, o programa de educação alimentar da NaCaZinha para crianças e jovens a partir dos 6 anos. Em oficinas culinárias práticas, conduzidas por nutricionistas, chefs e educadores, a criança descobre temperos, ervas e sabores naturais, aprende a montar preparações gostosas sem depender do excesso de açúcar e leva esse repertório para a mesa de casa.
Conheça o programa: Aprendiz Bem Nutrido Inscrições: nacazinha.com.br/programacao-aprendiz-bem-nutrido Dúvidas: (11) 97835-7461 · @nacazinha
Referências
EFSA (European Food Safety Authority). Coumarin in flavourings and other food ingredients with flavouring properties — Scientific Opinion of the Panel on Food Additives, Flavourings, Processing Aids and Materials in Contact with Food (AFC). EFSA Journal, 2008;793:1–15. (ingestão diária tolerável de cumarina de 0,1 mg/kg de peso corporal)
BfR (Bundesinstitut für Risikobewertung — Instituto Federal Alemão de Avaliação de Riscos). Cassia cinnamon with high coumarin contents to be consumed in moderation, 2012. (diferença entre canela-do-Ceilão e cássia; hepatotoxicidade reversível em pessoas suscetíveis)
Allen RW, Schwartzman E, Baker WL, Coleman CI, Phung OJ. Cinnamon Use in Type 2 Diabetes: An Updated Systematic Review and Meta-Analysis. Annals of Family Medicine, 2013;11(5):452–459.
Meta-análises e revisões sistemáticas subsequentes de ensaios clínicos randomizados (2019–2023) confirmando efeitos glicêmicos modestos e heterogêneos da suplementação de canela.
NCCIH / NIH (National Center for Complementary and Integrative Health). Cinnamon — informações de segurança, incluindo uso culinário na gestação e cautela com suplementos/extratos concentrados.
Perguntas frequentes
A canela emagrece?
Não. Essa é uma das maiores fake news da alimentação. Não há evidência científica consistente de que a canela acelere o metabolismo, queime gordura ou promova perda de peso significativa. Ela pode ser uma aliada dentro de um padrão alimentar saudável, mas nenhum alimento isolado emagrece sozinho.
Grávida pode comer canela? Canela é abortiva?
O uso da canela como tempero em preparações culinárias é considerado seguro para gestantes saudáveis, com moderação. Não há evidência de que o uso culinário provoque aborto — o mito vem de estudos com doses altíssimas de extratos, muitas vezes em animais. A recomendação é evitar cápsulas, extratos concentrados e suplementos de canela na gestação.
Criança pode consumir canela?
Sim. Como tempero em frutas, mingaus, aveia, vitaminas e bolos caseiros, a canela ajuda a desenvolver o paladar e pode reduzir a necessidade de açúcar. Como crianças têm menor peso corporal, o cuidado é evitar exageros e suplementos; para uso diário, a canela-do-Ceilão é a melhor opção por ter bem menos cumarina.
Qual a diferença entre canela-do-Ceilão e cássia?
As duas têm aroma agradável e compostos bioativos semelhantes. A diferença está na cumarina, um composto que em excesso pode sobrecarregar o fígado de pessoas suscetíveis: a cássia (mais comum no mercado) tem bastante cumarina, enquanto a canela-do-Ceilão (*Cinnamomum verum*) tem apenas traços. Para consumo diário, prefira a do Ceilão.
A canela ajuda a controlar o açúcar no sangue?
Alguns ensaios clínicos observaram pequenas reduções da glicemia de jejum em pessoas com diabetes tipo 2, mas os efeitos são modestos, variam entre os estudos e usaram principalmente cápsulas ou extratos padronizados. A canela pode complementar — nunca substituir — a alimentação equilibrada, a atividade física e os medicamentos.
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