Aleitamento e introdução alimentar: aprender a comer é brincar

Entenda por que manter aleitamento e introdução alimentar juntos sustenta o desenvolvimento do bebê: exploração sensorial, coordenação oral, neurodesenvolvimento e ritmo individual.

INTRODUÇÃO ALIMENTAR

Rachel Francischi & Ana Federici

1/1/20265 min read

Bebê sujo conhecendo comida
Bebê sujo conhecendo comida

Aleitamento e introdução alimentar: aprender a comer é brincar, explorar e se desenvolver

Depois de entender quando começar a introdução alimentar (Artigo 1), vamos entender como o leite sustenta esse processo.

Por que manter o leite no início da introdução alimentar sustenta o desenvolvimento do bebê?

A introdução alimentar é, antes de tudo, um período de aprendizagem. Muito além da ingestão de nutrientes, esse momento envolve descoberta, curiosidade, coordenação motora, desenvolvimento oral e a construção de uma relação positiva com a comida.

Por isso, compreender o papel do leite — especialmente o leite materno, sempre que possível — no início da introdução alimentar é fundamental. Ele segue oferecendo nutrição, proteção e conforto enquanto o bebê aprende, explora e se desenvolve no seu próprio ritmo.

Comer também é brincar: diversão, exploração e desenvolvimento neuromotor

Nos primeiros meses da introdução alimentar, a comida é uma experiência sensorial antes de ser uma refeição completa. O bebê aprende com o corpo inteiro.

Quando ele toca os alimentos, aperta, amassa, sente escorrer pela mão, leva à boca e experimenta diferentes texturas, algo muito importante está acontecendo do ponto de vista do desenvolvimento:

• fortalecimento da coordenação motora fina

• integração entre mãos, boca e olhos

• amadurecimento neuromotor

• construção da autonomia alimentar

O contato com os alimentos não acontece apenas pela boca. As mãos desempenham um papel central nesse processo. Pegar, sentir, explorar e manipular os alimentos favorece o neurodesenvolvimento e a construção de segurança em relação à comida.

Plasticidade neural e alimentação complementar

Nos primeiros anos de vida, o cérebro do bebê apresenta alta plasticidade neural. Isso significa que ele está especialmente sensível às experiências vividas nesse período.

A alimentação complementar é uma experiência estruturante, que ativa circuitos neurais ligados a:

• planejamento motor

• controle oral

• percepção sensorial

• aprendizagem

Por isso, permitir que o bebê explore os alimentos com tempo, liberdade e segurança emocional é parte essencial do processo de aprender a comer.

Desenvolvimento oral: reflexos, coordenação e tempo

A introdução alimentar contribui para:

• a diminuição progressiva da protrusão da língua

• o amadurecimento do reflexo de engasgo

• a melhora da coordenação entre mastigação e deglutição

Esse processo não acontece de forma imediata. Ele exige tempo, repetição, experiência e um ambiente emocionalmente seguro. Respeitar o ritmo do bebê é parte central de uma introdução alimentar saudável.

Reorganização das mamadas: um processo natural e variável

À medida que o bebê passa a ingerir maiores quantidades de alimentos, ocorre naturalmente uma reorganização das mamadas.

Esse processo é:

• espontâneo

• gradual

• variável entre bebês

Não existe atraso. Existe o tempo de cada bebê.

O que dizem as evidências científicas

A Organização Mundial da Saúde e o Ministério da Saúde recomendam que, após os 6 meses, a alimentação complementar seja iniciada com a manutenção do aleitamento materno sempre que possível.

O leite materno continua oferecendo:

• nutrição altamente biodisponível

• proteção imunológica

• conforto emocional

Mesmo após o início da introdução alimentar, ele segue sendo um alimento central na vida do bebê.

Bebês alimentados com fórmula também se beneficiam desse processo

Quando o aleitamento materno não é possível, os princípios da introdução alimentar permanecem os mesmos:

• respeito ao ritmo do bebê

• segurança

• ambiente acolhedor

A experiência de aprender a comer vai muito além do tipo de leite oferecido.

Mamar antes ou depois das refeições?

O leite materno pode ser oferecido antes, durante ou após as refeições, sem competir com os nutrientes dos alimentos.

Já a fórmula infantil pode interferir na absorção de alguns micronutrientes, como o ferro. Nesses casos, recomenda-se aguardar de 1 a 2 horas entre a oferta da fórmula e a refeição.

Um alerta necessário: aleitamento, introdução alimentar e o cenário brasileiro

Dados do ENANI-2019 mostram que:

• a prevalência de aleitamento materno exclusivo em menores de 6 meses foi de 45,8%, abaixo da meta global da OMS (50%)

• a prevalência de aleitamento materno em crianças menores de 2 anos foi de 60,3%

A recomendação de manutenção do aleitamento até dois anos ou mais é clara e baseada em evidências robustas.

Além dos benefícios para a criança, o aleitamento materno continuado também protege a saúde da mãe, estando associado a:

• menor risco de câncer de mama e ovário

• menor risco de diabetes tipo 2

• menor risco de fraturas relacionadas à osteoporose

O paradoxo brasileiro: leite ainda presente, alimentação complementar em piora

Apesar de muitas crianças ainda receberem leite materno no segundo ano de vida, a qualidade da alimentação complementar tem piorado de forma significativa.

O ENANI-2019 mostra que 80,5% das crianças entre 6 e 23 meses já consomem alimentos ultraprocessados, como:

• biscoitos recheados e bolachas

• salgadinhos industrializados

• bebidas adoçadas e refrescos artificiais

• refrigerantes

• iogurtes adoçados e sobremesas lácteas

• produtos prontos voltados ao público infantil

Esses alimentos interferem na formação do paladar e estão associados ao maior risco de obesidade, diabetes, doenças cardiovasculares e alguns tipos de câncer.

Introdução alimentar é uma janela de proteção da saúde

Os primeiros dois anos de vida representam uma oportunidade única de promover saúde ao longo de todo o ciclo vital.

Por isso, a recomendação é clara:

Antes dos 2 anos, a regra é zero ultraprocessados.

No NaCazinha, acompanhamos famílias de forma integral, unindo nutrição, culinária e desenvolvimento infantil, para que a introdução alimentar seja vivida com segurança, consciência e afeto.

Conheça nosso programa

Este texto faz parte da série Introdução Alimentar do NaCaZinha.