Adoçantes na infância são seguros?

Adoçantes na infância são seguros? Entenda os efeitos no metabolismo, no apetite e no comportamento alimentar infantil com base nas evidências científicas atuais.

NUTRIÇÃO

Rachel Francischi & Ana Federici

3/22/20269 min read

O uso de adoçantes na infância tem crescido de forma significativa nos últimos anos. Impulsionados pela preocupação com o consumo de açúcar e seus possíveis impactos metabólicos (veja também como os ultraprocessados — principais fontes de açúcar na alimentação infantil — impactam a saúde das crianças)

Produtos “zero”, “diet” ou “sem adição de açúcar” passaram a ocupar um espaço cada vez maior na alimentação das crianças — muitas vezes percebidos como escolhas mais saudáveis.

Mas a discussão atual vai além da simples substituição do açúcar.

As evidências científicas mais recentes indicam que, embora os adoçantes sejam considerados seguros do ponto de vista toxicológico, seus efeitos metabólicos, comportamentais e sensoriais — especialmente na infância — ainda não estão completamente esclarecidos.

Adoçantes na infância são seguros? O que dizem as agências regulatórias

A maioria dos adoçantes artificiais, como aspartame, sucralose e sacarina, foi avaliada por órgãos regulatórios como ANVISA, FDA e EFSA. Esses órgãos estabeleceram limites de ingestão diária aceitável (IDA), dentro dos quais essas substâncias são consideradas seguras para consumo humano.

Mas existe um ponto central que precisa ser destacado:

Segurança toxicológica não é sinônimo de benefício à saúde.

Uma revisão ampla sobre aditivos alimentares na infância aponta que ainda existem limitações importantes na literatura, especialmente em relação aos efeitos de longo prazo em crianças — um grupo potencialmente mais vulnerável, tanto pelo menor peso corporal quanto pelo fato de ainda estar em desenvolvimento.

Além disso, a Organização Mundial da Saúde publicou uma diretriz recente recomendando que adoçantes não sejam utilizados como estratégia para controle de peso ou prevenção de doenças crônicas, tanto em adultos quanto em crianças, devido à ausência de benefícios consistentes e possíveis efeitos indesejáveis.

Efeitos dos adoçantes no metabolismo infantil: o que mostram os estudos

Durante muito tempo, os adoçantes foram considerados substâncias metabolicamente inertes. Hoje, essa visão já não se sustenta da mesma forma.

Estudos observacionais e revisões recentes sugerem associações entre adoçantes e:

  • alterações na microbiota intestinal — um sistema essencial para a saúde das crianças e diretamente influenciado pela alimentação desde os primeiros anos de vida (leia mais sobre o papel do intestino na saúde infantil)

  • possível impacto no metabolismo da glicose

  • maior risco cardiometabólico em uso prolongado

  • alterações nos sinais de fome e saciedade


Um ensaio clínico publicado na Nature demonstrou que diferentes adoçantes podem alterar a microbiota intestinal e influenciar a resposta glicêmica de forma individualizada, reforçando que esses compostos não são metabolicamente neutros.

Além disso, evidências observacionais apontam associação entre maior consumo de adoçantes e pior desempenho cognitivo ao longo do tempo, como observado em análises da coorte brasileira ELSA-Brasil.

Importante reforçar:
Esses estudos mostram associação, não causalidade.

Ainda assim, indicam a necessidade de cautela — especialmente na infância.

Adoçantes naturais são mais seguros para crianças?

O aumento do uso de adoçantes considerados “naturais” trouxe consigo uma ideia de maior segurança. No entanto, essa percepção não se sustenta completamente do ponto de vista científico.

Mesmo compostos de origem vegetal ou vistos como mais “naturais”:

  • ativam receptores de sabor doce

  • exercem efeitos metabólicos

  • podem interferir na microbiota intestinal


Além disso, ainda não há evidências robustas sobre a segurança do uso prolongado desses compostos em crianças.

“Natural” não significa neutro — nem necessariamente mais seguro.

Como os adoçantes afetam o cérebro, o apetite e a saciedade

O organismo humano aprende, ao longo da vida, a associar o sabor doce à oferta de energia.

Quando uma criança consome açúcar:

  • há ativação de vias de recompensa

  • ocorre entrada calórica

  • o organismo integra esses sinais


Com os adoçantes, essa lógica se rompe:

  • há estímulo do sabor doce

  • mas não há entrega energética correspondente


Esse fenômeno é conhecido como: Desacoplamento entre percepção sensorial e resposta metabólica

Esse descompasso pode impactar:

  • sinais de saciedade

  • regulação do apetite

  • comportamento alimentar


Adoçantes aumentam o consumo de açúcar depois?

Um dos achados mais relevantes da literatura está relacionado ao comportamento alimentar após o uso regular de adoçantes.

Estudos experimentais indicam que indivíduos frequentemente expostos a adoçantes:

  • apresentam menor capacidade de compensação energética

  • e, ao consumir açúcar posteriormente, podem ingerir maiores quantidades de calorias


Esse efeito foi observado tanto em estudos com humanos quanto em modelos animais.

O ponto central não é apenas “gostar mais de doce”, mas sim responder pior ao açúcar quando ele é consumido.

Adoçantes interferem na formação do paladar infantil?

A relação entre exposição ao sabor doce e preferência alimentar é mais complexa do que parece.

Até o momento, não há evidência robusta de que a exposição ao doce, isoladamente, determine uma preferência aumentada por doce no longo prazo, especialmente em crianças.

Mas existe um ponto consistente:

A frequência de exposição ao doce pode influenciar o comportamento alimentar no momento do consumo — tema que se conecta diretamente com a construção do paladar infantil e a forma como as crianças aprendem a comer ao longo do tempo. (leia também: como o paladar infantil se desenvolve e por que a repetição importa)

Estudos mostram que indivíduos com maior exposição habitual a alimentos doces quando expostos ao açúcar podem ingerir maiores quantidades naquele momento.


Isso não necessariamente reflete uma preferência maior, mas uma resposta modulada pela exposição.

Adaptação ao doce: por que o paladar muda

Um dos mecanismos propostos para explicar esse fenômeno é a adaptação ao nível de doçura da dieta.

Ou seja:

  • o paladar se ajusta ao padrão alimentar habitual

  • níveis mais elevados de doçura tornam-se o “normal”

  • estímulos menos doces podem gerar menor aceitação naquele contexto


Isso não implica necessariamente uma mudança permanente de preferência, mas uma modulação dependente da exposição.

Por que o uso de adoçantes na infância merece atenção

Na infância, esse tema ganha ainda mais relevância porque:

✔ o repertório alimentar está em construção

✔ a aceitação de sabores depende de repetição e exposição

✔ o ambiente alimentar tem papel determinante

Assim, uma alimentação com alta presença de sabores intensamente doces — seja por açúcar ou adoçantes — pode:

  • reduzir a diversidade alimentar

  • limitar a aceitação de outros sabores

  • manter o doce como centro da experiência alimentar

Adoçantes x desenvolvimento alimentar: qual o impacto real

Mesmo sem calorias, os adoçantes:

  • mantêm a exposição frequente ao sabor doce

  • reforçam padrões sensoriais intensos

  • não contribuem para a ampliação do repertório alimentar


Ou seja: o impacto não é apenas metabólico — é também sensorial e comportamental.

Adoçantes ajudam a controlar a glicemia?

No curto prazo, substituir açúcar por adoçantes pode:

  • reduzir a glicemia pós-prandial

  • evitar picos de insulina


Por esse motivo, essa estratégia é frequentemente utilizada em contextos clínicos.

Os riscos do uso frequente de adoçantes no longo prazo

Apesar dos possíveis benefícios imediatos, o uso frequente de adoçantes apresenta limitações importantes:

  • não promove aprendizado alimentar

  • não ensina a criança a lidar com o açúcar

  • mantém a dependência do sabor doce

  • pode prejudicar a regulação futura da ingestão energética

Qual a melhor abordagem para o consumo de açúcar na infância?

Do ponto de vista do desenvolvimento alimentar, uma estratégia mais consistente é:

✔ não eliminar completamente o açúcar, mas contextualizar seu consumo

✔ oferecer em pequenas quantidades

✔ inserir dentro de refeições equilibradas

✔ priorizar alimentos in natura

Esse padrão:

  • reduz o impacto glicêmico de forma natural

  • preserva mecanismos de saciedade

  • evita o descompasso entre sabor e energia

Conclusão: adoçantes na infância — usar ou evitar?

A discussão sobre adoçantes na infância não deve se limitar à substituição do açúcar.

Embora sejam considerados seguros do ponto de vista regulatório, os adoçantes não são metabolicamente neutros e não contribuem para o desenvolvimento de uma relação equilibrada com o sabor doce.

As evidências atuais sugerem que seu uso frequente pode interferir na regulação do apetite, no comportamento alimentar e na forma como o organismo responde ao açúcar.

Nesse contexto, a estratégia mais consistente não é substituir indiscriminadamente, mas educar o paladar e o comportamento alimentar desde o início da vida — especialmente nos primeiros anos, quando tudo ainda está sendo construído. (entenda melhor como acontece a formação dos hábitos alimentares na infância)

Se queremos que as crianças desenvolvam uma relação mais equilibrada com o doce, isso não acontece pela restrição — mas pela experiência.

É justamente essa proposta que vivenciamos no NaCaZinha: um espaço onde as crianças aprendem, na prática, a cozinhar, provar, explorar sabores e entender o lugar do açúcar dentro de uma alimentação consciente e prazerosa.

Porque educar o paladar é, acima de tudo, educar a autonomia alimentar.

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Perguntas frequentes sobre adoçantes na infância

Adoçantes são seguros para crianças?

Os adoçantes são considerados seguros do ponto de vista toxicológico dentro dos limites de ingestão diária estabelecidos por órgãos como ANVISA, FDA e EFSA. No entanto, segurança não significa benefício à saúde, e ainda há incertezas sobre seus efeitos metabólicos e comportamentais no longo prazo, especialmente em crianças.

Adoçantes podem afetar o metabolismo infantil?

Estudos recentes sugerem que adoçantes não são metabolicamente neutros. Eles podem estar associados a alterações na microbiota intestinal, no metabolismo da glicose e nos sinais de fome e saciedade, embora ainda não haja relação causal definitiva.

Adoçantes naturais são mais seguros para crianças?

Nem sempre. Mesmo adoçantes de origem natural ativam receptores de sabor doce, têm efeitos metabólicos e podem interferir na microbiota intestinal. Além disso, ainda não há evidências robustas sobre a segurança do uso prolongado em crianças.

Adoçantes influenciam o comportamento alimentar das crianças?

Sim. O consumo de adoçantes pode interferir na regulação do apetite e na relação com o sabor doce, devido ao desacoplamento entre o estímulo sensorial doce e a ausência de aporte energético, o que pode impactar saciedade e comportamento alimentar.

Adoçantes podem aumentar o consumo de açúcar?

Estudos experimentais indicam que o uso frequente de adoçantes pode reduzir a capacidade de compensação energética. Assim, quando o açúcar é consumido posteriormente, pode haver maior ingestão calórica.

Adoçantes prejudicam a formação do paladar infantil?

A frequência de exposição ao sabor doce, seja por açúcar ou adoçantes, pode influenciar o comportamento alimentar e a aceitação de outros sabores, especialmente na infância, quando o repertório alimentar ainda está em formação.

Adoçantes ajudam a controlar a glicemia?

No curto prazo, os adoçantes podem reduzir a glicemia pós-prandial e evitar picos de insulina. Por isso, são utilizados em contextos clínicos específicos.

Qual a melhor forma de lidar com o açúcar na infância?

A abordagem mais consistente é não eliminar completamente o açúcar, mas contextualizar seu consumo, oferecer em pequenas quantidades, inserido em refeições equilibradas e priorizando alimentos in natura.