Ultraprocessados são o novo cigarro? O que a ciência está dizendo
Alimentos ultraprocessados (AUPs) podem ter mais em comum com cigarros do que com frutas e vegetais. Mas o que isso significa, na prática? E como isso impacta nossas crianças, famílias e escolhas cotidianas?
SAÚDE
Ana Federici & Rachel Francischi
2/19/20264 min read


Recentemente, um artigo publicado no Milbank Quarterly trouxe uma comparação que gerou debate no mundo da saúde pública:
Alimentos ultraprocessados (AUPs) podem ter mais em comum com cigarros do que com frutas e vegetais.
O estudo — conduzido por Ashley N. Gearhardt, Kelly D. Brownell e Allan M. Brandt, pesquisadores de Harvard, Universidade de Michigan e Duke — analisa como a indústria de ultraprocessados desenvolve produtos que estimulam consumo repetido, utilizando estratégias semelhantes às adotadas historicamente pela indústria do tabaco.
Mas o que isso significa, na prática? E como isso impacta nossas crianças, famílias e escolhas cotidianas? Vamos entender.
O que o estudo investigou?
O artigo (From Tobacco to Ultraprocessed Food: How Industry Engineering Fuels the Epidemic of Preventable Disease, 2026) não é um estudo experimental isolado. Ele é uma análise interdisciplinar, baseada em:
• Ciência da dependência
• Nutrição
• História da saúde pública
• Análise regulatória do tabaco
Os autores exploram paralelos entre duas indústrias:
1. A do tabaco
2. A de alimentos ultraprocessados
E apontam semelhanças estruturais importantes.
Engenharia do consumo: onde está a comparação?
Segundo os pesquisadores, tanto cigarros quanto ultraprocessados passam por processos de:
• Otimização de “dose” (quanto de açúcar, sal e gordura ativa mais o sistema de recompensa)
• Velocidade de absorção e impacto
• Formulação para maximizar repetição
• Design sensorial altamente refinado
Refrigerantes, salgadinhos, biscoitos recheados e outros produtos industrializados são formulados com precisão científica para estimular o cérebro a querer mais.
A professora Ashley Gearhardt, especialista em dependência, relata que muitos pacientes descrevem sua relação com esses produtos em termos semelhantes aos usados por ex-fumantes:
“Eu sei que isso está me fazendo mal. Eu quero parar. Mas não consigo.”
O estudo argumenta que muitos AUPs atendem a critérios científicos usados para avaliar potencial aditivo — embora ressalte que os danos à saúde são claros, independentemente de classificá-los formalmente como ‘viciantes’.
Health washing: quando o rótulo mascara o problema
O artigo também chama atenção para estratégias de marketing como:
• “Sem açúcar”
• “Baixo teor de gordura”
• “Fonte de vitaminas”
Os autores comparam isso à publicidade de filtros de cigarro nos anos 1950, promovidos como “inovações protetoras”, mas que não reduziram significativamente os danos.
Essa prática é chamada de health washing — quando um produto industrializado usa alegações de saúde para parecer mais seguro do que realmente é.
Responsabilidade individual ou responsabilidade da indústria?
Durante décadas, o discurso em torno do cigarro foi:
“Fume com moderação.”
Só depois de forte evidência científica e pressão regulatória é que a responsabilidade passou da escolha individual para o modelo industrial.
O estudo sugere que estamos vivendo momento semelhante com os ultraprocessados.
Os autores defendem que políticas públicas poderiam incluir:
• Restrições de marketing para crianças
• Mudanças estruturais no ambiente alimentar
• Regulação mais rigorosa
• Ações legais semelhantes às usadas no controle do tabaco
E propõem uma mudança de foco:
Da responsabilidade individual para a responsabilização da indústria.
Nem todos concordam
O debate científico não é unânime.
O professor Martin Warren, do Quadram Institute, pondera que ainda há discussão sobre:
• Se os AUPs são farmacologicamente viciantes como a nicotina
• Ou se exploram principalmente preferências aprendidas, conveniência e condicionamento de recompensa
Ele também levanta a seguinte questão:
O problema está no conteúdo dos ultraprocessados ou no fato de que eles substituem alimentos integrais ricos em fibras, micronutrientes e fitoquímicos protetores?
Essa distinção importa — porque define que tipo de resposta regulatória é mais adequada.
Um alerta global
Dr. Githinji Gitahi, da Amref HealthAfrica, reforça que em muitos países — especialmente na África — empresas encontram um cenário de:
• Regulação fraca
• Mudança rápida no padrão alimentar
• Crescimento de doenças crônicas
Sem intervenções públicas, o impacto sobre sistemas de saúde pode ser severo.
E o que isso significa para as famílias?
No NaCaZinha, nós acreditamos em algo essencial:
A comida não é vilã. Mas o ambiente alimentar importa.
Diferente do tabaco, a comida é essencial para a vida. Justamente por isso, precisamos de ambientes que favoreçam escolhas saudáveis.
Não se trata de medo.
Não se trata de proibição.
Não se trata de culpa.
Se trata de:
• Construir repertório alimentar desde a infância
• Ensinar leitura crítica de rótulos
• Valorizar alimentos in natura e minimamente processados
• Cozinhar como ato de autonomia
• Desenvolver consciência — não paranoia
O que permanece sólido na ciência?
Independente da discussão sobre “dependência”, há consenso robusto de que dietas baseadas em alimentos ultraprocessados estão associadas a maior risco de:
• Obesidade
• Diabetes tipo 2
• Doenças cardiovasculares
• Depressão
• Inflamação crônica
E que padrões alimentares baseados em comida de verdade oferecem proteção metabólica e sistêmica.
Nosso caminho
O debate científico continua — como deve continuar.
Mas enquanto a regulação global evolui, algo já está ao nosso alcance:
Cozinhar.
Aprender.
Escolher melhor.
Criar crianças que entendem o que comem.
Porque no fim das contas, autonomia alimentar é uma forma de liberdade.
E liberdade começa no prato.
Referência
Gearhardt AN, Brownell KD, Brandt AM.
From Tobacco to Ultraprocessed Food: How Industry Engineering Fuels the Epidemic of Preventable Disease.
Milbank Quarterly. 2026;104(1):0202. DOI: 10.1111/1468-0009.70066
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