Sustentabilidade da amamentação: a pergunta precisa ir além do leite

Será que trocar a mamadeira pelo copo basta? Entenda o que a ciência, a SBP e as políticas públicas dizem sobre amamentação nas creches.

INTRODUÇÃO ALIMENTAR

Ana Federici

8/8/20266 min read

O tema da Semana Mundial de Aleitamento Materno de 2026 — “Amamentação para um começo de vida sustentável: fortalecer o que funciona” — convida a pensar sustentabilidade de maneira ampla. O leite materno é um alimento nutricionalmente adequado, disponível sem cadeia industrial de produção, embalagem e transporte e com impacto ambiental muito menor que seus substitutos. Mas talvez a ideia mais potente deste ano seja outra: uma prática só é verdadeiramente sustentável quando o sistema que a sustenta também funciona.

É justamente aí que a realidade das creches coloca uma pergunta desconfortável.

Recomendar que uma família mantenha o aleitamento após o retorno ao trabalho é relativamente simples. Para que isso aconteça, porém, alguém precisa receber o leite ordenhado, armazená-lo adequadamente, controlar temperaturas, fracioná-lo, aquecê-lo corretamente, oferecê-lo ao bebê com técnica apropriada, respeitar seu ritmo e reconhecer sinais de dificuldade.

Em outras palavras, o direito ao aleitamento materno não termina quando o leite chega à porta da creche.

E São Paulo acabou de reconhecer isso em lei. A Lei Estadual nº 18.425, de 13 de março de 2026, garante o direito à amamentação e ao aleitamento materno nas creches públicas e privadas do Estado. Entre outras medidas, prevê lactários e espaços de apoio, condições para armazenamento do leite e, significativamente, capacitação técnica dos profissionais das creches. A lei ainda determina ações educativas sobre os efeitos negativos de mamadeiras, bicos e chupetas sobre o aleitamento.

Esse último ponto merece atenção.

Copo aberto não significa simplesmente “trocar a mamadeira por um copo”

A recomendação de oferecer o leite por copo tem fundamento.

O Ministério da Saúde orienta que o leite materno ordenhado seja oferecido preferencialmente em copo, xícara ou colher, e chama especificamente a atenção para o papel dos profissionais das creches na criação de maneiras de alimentar e hidratar os bebês sem mamadeira.

A Secretaria Municipal de Educação de São Paulo segue linha semelhante: no informativo técnico destinado aos CEIs, recomenda preferencialmente copinho tipo dose, colher, xícara/caneca ou copo de transição de bico rígido para o leite materno. Interessantemente, o próprio documento admite diálogo entre família e unidade para escolha do utensílio.

A técnica do copo é utilizada há décadas e foi bastante estudada principalmente em neonatologia. Uma revisão sistemática envolvendo 28 estudos encontrou que a alimentação por copo parece ser segura do ponto de vista fisiológico, embora possa haver mais derramamento, ingestão menor em algumas situações e problemas de aceitação ou adesão. Alguns estudos ainda indicam melhores resultados de manutenção da amamentação quando comparada ao uso da mamadeira.

Mas há uma condição fundamental nessa literatura:

copo seguro é copo utilizado com técnica correta.

A OMS orienta colocar o bebê sentado ou semissentado, aproximar a borda do copo dos lábios e inclinar apenas até que o leite os toque. A criança deve lamber, sorver e controlar o ritmo da ingestão. O cuidador não deve despejar o leite dentro da boca. A própria OMS explica que despejá-lo pode provocar engasgo.

Portanto, a segurança não está simplesmente no objeto.

Está na tríade:

utensílio + técnica + condições de cuidado.

E talvez seja exatamente essa terceira variável que esteja faltando em parte da discussão.

O copo pode ser seguro. Mas o ambiente também precisa ser.

Imagine uma educadora responsável simultaneamente por vários bebês.

Um chora. Outro precisa ser trocado. Um terceiro está iniciando uma refeição. Outro terminou de comer. Há bebês em diferentes estágios de desenvolvimento motor, alguns sentando com segurança, outros ainda necessitando bastante sustentação.

Nesse contexto, uma mamadeira pode parecer operacionalmente mais fácil porque o adulto conhece profundamente aquele mecanismo e percebe que possui maior controle sobre o fluxo.

Isso não significa que a mamadeira seja fisiologicamente superior nem que deva ser recomendada.

Significa que existe uma percepção de segurança produzida pelas condições de trabalho.

E ignorá-la pode ser um erro de política pública.

As novas Diretrizes Operacionais Nacionais de Qualidade e Equidade para a Educação Infantil estabeleceram como referência progressiva no país uma proporção de até cinco bebês de 0 a 12 meses por educador e oito de 12 a 24 meses. O próprio MEC enfatiza que qualidade na Educação Infantil depende, entre outros elementos, do número de crianças por professor e das condições concretas de funcionamento das instituições.

Em documentos da rede municipal paulistana, por sua vez, encontramos historicamente proporções de sete bebês por educador no Berçário I e nove no Berçário II. Assim, mesmo quando as proporções formais são respeitadas, uma sala pode reunir muitos bebês, atendidos por mais de um adulto, enquanto alimentação, higiene, sono e outras demandas acontecem simultaneamente.

A alimentação responsiva de um bebê, especialmente por copo, exige atenção individual.

Não parece coerente defender uma técnica que exige atenção individualizada sem discutir simultaneamente quem estará disponível para oferecer essa atenção.

Há ainda uma lacuna de evidência importante

Grande parte da pesquisa sobre alimentação por copo foi realizada em hospitais, unidades neonatais ou situações de alimentação individualizada.

Essa literatura permite dizer que a técnica pode ser segura quando corretamente executada.

Ela não permite, com a mesma segurança, afirmar que simplesmente substituir mamadeiras por copos em uma sala de creche com múltiplos bebês e inúmeras demandas simultâneas produzirá automaticamente o mesmo resultado.

Essa é uma distinção científica importante.

Até protocolos brasileiros ilustram essa diferença. Um procedimento operacional de Piracicaba, por exemplo, descreve a oferta de leite humano ordenhado ou fórmula infantil em copo aberto, mas determina que o procedimento seja executado por equipe de enfermagem previamente treinada, com posição, fluxo e técnica definidos.

Ou seja: copiamos facilmente o utensílio de um protocolo clínico, mas não podemos esquecer de copiar as condições de segurança que acompanham esse utensílio.

Talvez o problema não seja “copo versus mamadeira”

A pergunta mais interessante poderia ser:

Que condições uma creche precisa oferecer para que o leite materno possa ser recebido e oferecido de maneira segura, respeitosa e compatível com a manutenção da amamentação?

Isso muda completamente a discussão.

Em vez de entregar às educadoras uma orientação dizendo simplesmente “não use mamadeira”, uma política efetiva precisaria garantir formação prática em alimentação responsiva e técnica do copo; treinamento para reconhecimento de engasgo e alterações de deglutição; protocolos para crianças com dificuldades alimentares ou condições clínicas específicas; proporção adequada de adultos por bebê nos momentos de alimentação; organização das refeições para permitir supervisão individual; integração entre saúde, nutrição e educação; orientação consistente às famílias e acompanhamento da implantação.

Essa lógica é, curiosamente, exatamente a que a nova lei paulista começa a apontar ao determinar capacitação técnica dos profissionais e cooperação entre saúde, educação, assistência e desenvolvimento social.

E há ainda uma contradição normativa extremamente simbólica.

Enquanto a orientação técnica da própria Prefeitura de São Paulo recomenda preferencialmente copo, colher ou xícara para o leite materno, a regulamentação municipal publicada em 2024 ainda descreve o lactário como espaço destinado ao “preparo, higienização, esterilização e distribuição das mamadeiras”.

Não é um detalhe semântico.

É o retrato de uma política em transição: a recomendação sanitária mudou mais rápido do que a estrutura institucional.

Sustentabilidade também é tornar a recomendação possível

Talvez essa seja uma discussão particularmente pertinente para a SMAM de 2026.

Defender o aleitamento materno não significa apenas convencer mães a amamentar.

Significa construir ambientes nos quais continuar amamentando seja possível.

Quando uma mãe entrega seu leite ordenhado à creche, há ali um enorme investimento: extração, armazenamento, transporte, organização da rotina e desejo de continuar oferecendo aquele alimento ao filho mesmo durante sua ausência.

Se o sistema não consegue receber esse leite ou não se sente seguro para oferecê-lo da maneira recomendada, o problema não deveria ser atribuído exclusivamente à família ou à educadora.

É um problema de sistema.

Da mesma maneira, quando uma educadora diz que se sente mais segura oferecendo uma mamadeira do que manipulando um copo aberto diante de vários bebês, talvez a primeira resposta não devesse ser:

“Você está fazendo errado.”

Deveria ser:

“O que precisamos mudar para que você consiga fazer da maneira recomendada com segurança?”

Essa pergunta desloca a responsabilidade do indivíduo para a rede de cuidado.

E combina profundamente com o lema deste ano: fortalecer o que funciona.

Fortalecer a amamentação exige proteger a mãe.

Mas exige também proteger quem recebe o bebê quando ela não está presente.

Treinar.

Dimensionar equipes.

Organizar ambientes.

Criar protocolos.

Supervisionar.

Acolher dúvidas.

Identificar crianças que precisam de avaliação individual.

E transformar uma recomendação baseada em evidências em uma prática igualmente baseada em evidências.

Porque não há sustentabilidade quando uma política depende de profissionais executarem o ideal em condições que tornam o ideal quase impossível.

Talvez a grande oportunidade desta SMAM seja ampliar o debate: não perguntar apenas qual recipiente devemos usar para oferecer o leite, mas que creches precisamos construir para que continuar amamentando seja realmente um direito possível.

E essa me parece uma discussão muito mais potente do que copo versus mamadeira

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