Educação alimentar nas escolas: por que a cozinha precisa voltar para o centro da infância

Educação alimentar nas escolas: conheça o NaCaZinha Educação, inspirado no Edible Schoolyard, e por que a horta didática e a cozinha são ferramentas potentes de ensino.

CULINÁRIAALIMENTAÇÃO

Ana Federici

8/26/20265 min read

Tem uma cena que muita gente da minha geração ainda guarda com carinho: a mãe cozinhando, o rádio ligado, e a criança na mesa da cozinha fazendo a lição de casa, ou só ali por perto, enquanto o cheiro do feijão ou do arroz refogado ia tomando conta da casa. Ninguém tinha planejado uma "atividade pedagógica". Era só o dia acontecendo. Mas era ali, naquele ir e vir entre a panela e o caderno, que a alimentação ia ganhando contornos saudáveis, presentes, cotidianos — sem discurso, sem cartilha, só pela convivência.

Essa cena mudou. As rotinas ficaram mais corridas, os horários mais apertados, e a cozinha — que era ponto de encontro — foi, aos poucos, perdendo espaço em muitas casas. Não é uma crítica às famílias: é o retrato de um tempo em que a correria tem ocupado o lugar que antes era do convívio.

Foi pensando nesse vazio — e em como a escola pode ajudar a preenchê-lo — que nasceu o NaCaZinha Educação, também conhecido como The Edible Schoolyard Brazil: nossa frente dedicada a levar horta e cozinha para dentro da rotina escolar, do 1º ano ao Ensino Médio.

Um problema que a lei já reconhece, mas que a prática ainda não resolveu

A educação alimentar e nutricional já é, formalmente, obrigação da escola: a Lei 13.666/2018 incluiu o tema no currículo, e o PNAE cobra atenção à alimentação escolar desde a Lei 11.947/2009. As famílias também cobram. E a escola responde com o que consegue: uma horta que definha no segundo semestre, uma palestra pontual, um dia da fruta.

O problema raramente é falta de vontade. É que essas iniciativas costumam nascer sem conteúdo estruturado por trás — sem plano, sem progressão entre as turmas, sem registro do que foi ensinado. E atividade sem estrutura é a primeira coisa que cai quando o calendário aperta, não importa o nome bonito que tenha. Quando existe programa de verdade, ele quase sempre para na educação infantil: a criança de 4 anos amassa a massa, mas a de 12 não ouve mais falar de comida dentro da escola — bem na idade em que já começa a escolher sozinha o que come.

Duas peças que fazem, duas peças que sustentam

No NaCaZinha Educação, cada aula é construída com quatro peças. Duas são o fazer: a receita — o que se planta e o que se cozinha — e a técnica — o gesto que a criança aprende com o corpo, como misturar, amassar, modelar, refogar.

As outras duas são os eixos que fazem essa aula existir dentro do currículo e dentro da política alimentar brasileira. Um é o eixo escola: a habilidade da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) que está sendo trabalhada ali, com código específico — por exemplo, uma habilidade de geografia no preparo de um pão de queijo, ou de ciências na leitura do rótulo de um molho pronto. O outro é o eixo comida: o princípio do Guia Alimentar para a População Brasileira que fica com a criança — comida de verdade em vez de ultraprocessado, cozinhar do zero em vez de molho pronto, suco de verdade em vez de bebida industrializada, não desperdiçar, comer colorido, ampliar repertório.

É esse cruzamento entre BNCC e Guia Alimentar, aula a aula, que faz o programa caber de fato no projeto pedagógico da escola — e sobreviver ao calendário, em vez de definhar como tantas boas intenções isoladas.

Cozinha e horta como sala de aula — e como Sabores que Ensinam

Dentro do NaCaZinha Educação, um dos programas que mais expressa esse método no dia a dia é o Sabores que Ensinam: aulas de culinária em que cada receita carrega, ao mesmo tempo, técnica, repertório cultural, autonomia e um conteúdo curricular de verdade — não como um "tema transversal" decorativo, mas como parte estruturada da aprendizagem.

A horta ensina tempo, ciclo, paciência, biologia, sustentabilidade. A cozinha ensina medida, transformação, química, cultura, história, matemática aplicada, coordenação motora. Uma criança que planta, colhe, lava, corta e cozinha um alimento constrói com ele uma relação que nenhuma aula expositiva sobre nutrição consegue substituir — porque aprende fazendo, e aprende também a se sentir capaz.

Formatos possíveis para uma escola começar

Sabemos que cada escola tem sua estrutura, seu calendário e seu ritmo — por isso o NaCaZinha Educação entra de formas diferentes, conforme o que já existe: uma horta didática, projetada para uso pedagógico e não só para foto; uma cozinha didática, com layout, fluxo de turma e protocolo de segurança pensados para a realidade da escola; um programa extracurricular, com plano por semestre, mapeamento por turma e relatório periódico para a coordenação; ou a formação da própria equipe pedagógica, para que os professores conduzam as aulas com autonomia, usando o método.

Tudo isso é testado antes de virar aula: cada receita passa pela nossa sede, no Alto da Boa Vista, em São Paulo, onde o método foi construído e segue sendo corrigido — receita por receita, turma por turma, com crianças reais.

Uma inspiração que já é movimento

Essa forma de pensar a educação alimentar não começou com a gente. Em 1995, Alice Waters transformou um terreno abandonado de uma escola pública em Berkeley em horta e cozinha didática, dando origem ao Edible Schoolyard Project. A ideia virou movimento: hoje são mais de 5.800 programas em 75 países usando comida como ferramenta de ensino. O NaCaZinha Educação integra essa rede global de edible education — embora não seja afiliado, licenciado nem representante oficial da organização — e encontra, no Brasil, algo raro: uma política pública alimentar, o próprio Guia Alimentar, que já defende por escrito o que esse movimento defende há décadas por convicção.

O olhar NaCaZinha

No fundo, o que estamos tentando reconstruir com o NaCaZinha Educação não é apenas um método de ensino sobre nutrição. É um lugar — o lugar que a cozinha ocupava em tantas casas: de encontro, de espera, de aprendizagem sem hora marcada, de comida sendo feita junto com a vida acontecendo ao redor. Um lugar que muitas famílias, hoje, não conseguem mais sustentar sozinhas, seja pela correria, seja pela distância que se criou entre gerações e a prática culinária.

Se a escola pode ajudar a devolver esse espaço — mesmo que em outro endereço, com outras mãos ao redor da bancada — já estamos cumprindo boa parte do nosso propósito: nutrir mentes, corpos e comunidades, começando pela sala de aula, mas sempre de olho em como essa semente volta a florescer dentro de cada casa.

No NaCaZinha, acreditamos que alimentação infantil não se constrói com culpa nem com fórmulas prontas. Ela nasce no encontro entre informação confiável, comida de verdade, vínculo, rotina possível e adultos apoiados para cuidar melhor.

Se você faz parte da coordenação pedagógica de uma escola e quer conhecer o método de perto, é possível agendar um diagnóstico diretamente com a equipe do NaCaZinha Educação em nacazinhaeducacao.com.

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