Educação alimentar infantil: quando ensinar sobre alimentação vira uma história de terror?

Um vídeo assusta uma criança para fazê-la comer melhor. Rachel Francischi (NaCaZinha) reflete sobre medo, mentira e confiança na educação alimentar infantil.

NUTRIÇÃO

Rachel Francischi

9/7/20268 min read

Recentemente, vi um vídeo que me fez pensar bastante sobre a maneira como estamos ensinando as crianças a se relacionarem com a alimentação. Nele, uma família simulava um exame de ultrassom da barriga de uma criança e, na televisão, aparecia uma imagem computadorizada em que um verme, ou algo semelhante, se movimentava dentro do seu corpo. A criança acreditava que aquilo era real e ficava assustada, enquanto os adultos utilizavam a situação para convencê-la de que precisava comer de forma mais saudável.

É fácil compreender a intenção por trás da brincadeira: os adultos provavelmente queriam tornar concreto um conceito abstrato, mostrando que aquilo que comemos interfere no funcionamento do organismo. A questão, entretanto, é que uma boa intenção não transforma necessariamente uma estratégia em uma boa estratégia educativa.

Eu não recomendaria esse tipo de abordagem e, para mim, o problema não está simplesmente no fato de a criança ter sido assustada. Há uma questão ainda mais importante: o que exatamente estamos ensinando quando utilizamos uma informação falsa para produzir um comportamento que consideramos desejável?

Se funcionou, então qual é o problema?

Essa talvez seja a primeira pergunta que alguém faria. Se, depois daquela experiência, a criança passou a comer mais frutas, verduras ou outros alimentos que os pais desejavam incluir na alimentação, por que considerar a estratégia inadequada?

Porque comportamento e aprendizagem não são sinônimos.

Uma criança pode modificar seu comportamento porque compreendeu determinada informação e encontrou sentido nela, mas também pode fazê-lo simplesmente porque sentiu medo. Embora os dois caminhos possam produzir, no curto prazo, o mesmo resultado visível, o que está sendo construído internamente é bastante diferente.

No vídeo, a criança não está necessariamente aprendendo que uma alimentação variada fornece nutrientes importantes para o crescimento e para o funcionamento do organismo. Ela pode estar aprendendo que determinados alimentos fazem aparecer coisas nojentas dentro da barriga e que, portanto, comer esses alimentos representa um perigo.

Nesse caso, não estamos ensinando nutrição; estamos utilizando o medo para obter obediência.

E existe ainda um problema: aquilo não é verdade

Para mim, esse é um dos aspectos mais delicados da situação.

Não estamos diante de uma história infantil, de uma metáfora assumidamente fictícia ou de uma brincadeira em que todos sabem que estão imaginando alguma coisa. A criança está sendo levada a acreditar que aquela imagem representa o que realmente está acontecendo dentro do seu corpo.

E não está.

Não é verdade que comer determinados alimentos faça surgir vermes ou organismos semelhantes no intestino. Portanto, além de assustar, a estratégia ensina um conceito biologicamente incorreto.

Crianças aprendem por meio de histórias e do faz-de-conta, e não há nenhum problema em utilizar recursos lúdicos para explicar fenômenos complexos. Podemos, inclusive, usar uma animação de um intestino, criar um personagem ou fazer um “ultrassom” de brincadeira. O que muda tudo é a forma como apresentamos aquilo: uma coisa é dizer “vamos imaginar o que acontece dentro do nosso corpo”; outra, bastante diferente, é apresentar uma ficção como realidade para provocar medo e modificar um comportamento.

Até onde uma mentira pode ser justificada por uma boa intenção?

É aqui que a questão deixa de ser apenas nutricional e passa a ser também ética.

Pais e cuidadores, em diferentes situações, recorrem a pequenas mentiras, e seria simplista colocar todas elas na mesma categoria. Existem situações em que o adulto omite ou adapta uma informação porque a criança ainda não tem maturidade para compreendê-la, ou porque busca protegê-la de alguma circunstância. Isso é diferente de inventar uma ameaça para controlar uma escolha.

No caso do vídeo, a mentira não está apenas presente; ela é justamente o instrumento utilizado para provocar uma resposta emocional que o adulto deseja obter.

A pergunta, então, não deveria ser apenas “isso fez a criança comer melhor?”, mas também “é esse o tipo de relação que queremos estabelecer entre adultos e crianças quando ensinamos algo importante?”.

Pesquisas recentes mostram que as crianças são capazes de distinguir diferentes tipos de mentira parental e que essa distinção se relaciona à maneira como avaliam os pais e a confiança que depositam neles. Um estudo publicado em 2025, com crianças de 8 a 12 anos, observou que mentiras percebidas como benéficas para a própria criança eram avaliadas de maneira diferente daquelas que beneficiavam o adulto. (DOI)

Mais recentemente, um estudo publicado em 2026 mostrou que crianças também percebem inconsistências entre aquilo que os pais dizem sobre honestidade e aquilo que efetivamente fazem, sendo o comportamento dos adultos particularmente relevante para suas avaliações morais. (ScienceDirect)

Isso não significa que uma mentira isolada vá destruir a confiança de uma criança. Significa, entretanto, que a honestidade e a coerência fazem parte da educação e que vale a pena pensar sobre aquilo que estamos ensinando para além do comportamento imediato que desejamos produzir.

O medo pode produzir uma mudança, mas não necessariamente produz uma aprendizagem saudável

O medo é uma emoção poderosa justamente porque consegue modificar comportamentos rapidamente. O problema é que não controlamos completamente aquilo que a criança vai associar à experiência.

Ela pode compreender que a alimentação é importante para a saúde, mas também pode associar determinados alimentos a sujeira, perigo ou doença; pode passar a acreditar que comer “errado” significa colocar o próprio corpo em risco ou, ainda, aprender que os adultos podem inventar informações quando querem que ela faça alguma coisa.

Não podemos afirmar, a partir de um vídeo isolado, que uma experiência como essa necessariamente produzirá algum desses efeitos. Seria uma extrapolação que a ciência não permite. Mas também não deveríamos ignorar que as experiências emocionais que acompanham a alimentação participam da construção da relação da criança com a comida.

A literatura sobre comportamento alimentar infantil vem mostrando, há anos, que práticas parentais coercitivas, como pressionar a criança a comer, estão associadas a dificuldades alimentares, e uma revisão sistemática e meta-análise publicada em 2026, que reuniu 17 estudos e mais de 10 mil crianças, encontrou associação entre pressão para comer e maior neofobia alimentar. Em contraste, o modelamento parental — aquilo que a criança observa os adultos fazendo — aparece como uma estratégia mais favorável. (PubMed)

Uma revisão sistemática brasileira também identificou a pressão dos pais para que a criança coma entre os fatores associados à neofobia alimentar, reforçando a importância de considerar o ambiente emocional e relacional em que as refeições acontecem. (PubMed)

Isso não significa que devemos ter medo de orientar, ensinar ou estabelecer limites. Significa que precisamos distinguir educação de coerção, especialmente quando estamos falando de uma relação que a criança levará para toda a vida.

Crianças não precisam ter medo da comida

Talvez o aspecto que mais me incomode nesse tipo de estratégia seja a ideia, muitas vezes implícita, de que precisamos assustar uma criança para que ela cuide da alimentação, como se explicar, experimentar, observar e participar não fossem suficientes.

Eu acredito justamente no caminho contrário.

Podemos ensinar uma criança sobre digestão, intestino, nutrientes, crescimento e funcionamento do organismo sem transformar a comida em uma ameaça. Podemos utilizar imagens, modelos, animações, experiências culinárias e recursos lúdicos que despertem curiosidade, desde que aquilo que estamos ensinando seja verdadeiro e adequado à idade.

Em vez de mostrar um verme inexistente para dizer “olha o que acontece quando você come isso”, podemos perguntar: “Você já imaginou o que acontece com a comida depois que a gente engole?”

A primeira abordagem produz medo; a segunda produz curiosidade. E a curiosidade, quando acompanhada de uma boa mediação do adulto, pode ser uma poderosa ferramenta de aprendizagem.

Educação alimentar não deveria ser sinônimo de obediência

Para mim, esse é o ponto central da discussão.

O objetivo da educação alimentar não deveria ser fazer a criança obedecer ao adulto e escolher aquilo que o adulto considera saudável. Deveria ser ajudá-la, progressivamente, a compreender o próprio corpo, conhecer os alimentos, ampliar suas experiências, desenvolver autonomia e construir uma relação positiva e flexível com a alimentação.

Esse processo é necessariamente mais lento do que uma estratégia baseada no medo, porque envolve repetição, exposição, exemplo, conversa e participação. Talvez justamente por isso sejamos tão atraídos por soluções que prometem uma mudança imediata de comportamento.

Mas educação não deveria ser avaliada apenas pela velocidade com que conseguimos fazer uma criança obedecer.

Quando vejo um vídeo como esse, portanto, a minha primeira pergunta não é “funcionou?”. É outra:

“O que essa criança aprendeu?”

Ela pode ter aprendido que determinados alimentos fazem parte de uma alimentação saudável. Mas também pode ter aprendido que comida é perigosa, que o próprio corpo esconde coisas assustadoras ou que um adulto pode inventar uma ameaça quando quer conseguir alguma coisa.

Não sabemos qual será o efeito daquela experiência específica, e não seria responsável afirmar que necessariamente haverá uma consequência negativa. O que podemos fazer, entretanto, é escolher deliberadamente quais mensagens queremos transmitir quando educamos.

Por isso, quando falamos de alimentação infantil, eu prefiro trocar o medo pela curiosidade, a ameaça pela informação e a coerção pelo exemplo.

Crianças não precisam de histórias de terror para aprender a cuidar de si. Elas precisam de adultos que lhes ofereçam informações verdadeiras, experiências positivas, bons modelos e espaço para construir, pouco a pouco, uma relação de confiança com o próprio corpo e com a comida.

Isso, para mim, é educação alimentar de verdade.

Referências

Bélanger E, Crossman AM, Talwar V. Practice what you preach? Children’s evaluations of parents’ verbal messages and social modeling of honesty and lie-telling. Journal of Experimental Child Psychology. 2026;268:106528. doi:10.1016/j.jecp.2026.106528.

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Say A, Garcia X, Mallan KM. The correlation between different operationalisations of parental restrictive feeding practices and children’s eating behaviours: Systematic review and meta-analyses. Appetite. 2023;180:106320. doi:10.1016/j.appet.2022.106320.

Torres TO, Gomes DR, Mattos MP. Factors Associated with Food Neophobia in Children: Systematic Review. Revista Paulista de Pediatria. 2021;39:e2020089. doi:10.1590/1984-0462/2021/39/2020089.

Schröer R, et al. Children’s Perspective on Parental Lying and Its Effect on Trust: Co-Creation of an Instrument and Pilot Results. Social Development. 2025. doi:10.1111/sode.70026.

Dovey TM, Staples PA, Gibson EL, Halford JCG. Correlates of picky eating and food neophobia in young children: a systematic review and meta-analysis. Nutrition Reviews. 2017;75(7):516–532.

Perguntas frequentes

Se funcionou, então qual é o problema?

Porque comportamento e aprendizagem não são sinônimos. Uma criança pode modificar seu comportamento porque compreendeu determinada informação e encontrou sentido nela, mas também pode fazê-lo simplesmente porque sentiu medo.

É verdade que comer certos alimentos faz aparecer vermes na barriga, como no vídeo?

Não. Não é verdade que comer determinados alimentos faça surgir vermes ou organismos semelhantes no intestino. Além de assustar, a estratégia ensina um conceito biologicamente incorreto.

Uma mentira pode ser justificada por uma boa intenção?

Existem situações em que o adulto omite ou adapta uma informação porque a criança ainda não tem maturidade para compreendê-la, ou porque busca protegê-la. Isso é diferente de inventar uma ameaça para controlar uma escolha.

Crianças precisam ter medo da comida para aprender a se alimentar bem?

Não. Podemos ensinar uma criança sobre digestão, intestino, nutrientes, crescimento e funcionamento do organismo sem transformar a comida em uma ameaça, usando imagens, modelos, animações e recursos lúdicos verdadeiros e adequados à idade.

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