Seletividade Alimentar Infantil: como ajudar o seu filho a comer melhor
Entenda o que é seletividade alimentar infantil e aprenda como ajudar seu filho a ampliar o repertório alimentar com acolhimento, consistência e orientação especializada.
Rachel Francischi & Ana Federici
12/28/20254 min read


Para muitas famílias, a hora da refeição pode alternar entre momentos de conexão e episódios de tensão. Quando uma criança rejeita saladas, frutas, legumes ou novos alimentos, é comum que pais e cuidadores se sintam frustrados, preocupados ou até culpados.
A boa notícia é que, na maioria dos casos, isso não é teimosia nem “frescura”. Trata-se de um comportamento bastante comum na infância: a seletividade alimentar.
O que é seletividade alimentar?
A seletividade alimentar se caracteriza pela recusa persistente ou aceitação muito restrita de alimentos, geralmente baseada em características como cor, textura, cheiro, temperatura ou aparência.
Ela é especialmente frequente entre os 2 e 6 anos, fase em que a criança está:
• aprendendo a se proteger do desconhecido
• afirmando sua autonomia
• construindo sua relação com o próprio corpo e com a comida
Estudos indicam que a prevalência de seletividade alimentar pode variar entre 13% e 50% das crianças, dependendo da faixa etária, dos critérios utilizados e do contexto familiar e cultural. Em muitos casos, esse comportamento é transitório. Em outros, pode se intensificar se não for conduzido com cuidado.
Por que a seletividade acontece?
A seletividade alimentar raramente tem uma única causa. Na prática clínica, ela costuma surgir da interação entre fatores orgânicos, sensoriais, comportamentais e ambientais.
Causas orgânicas e sensoriais
• Alterações gastrointestinais (refluxo, constipação, dor abdominal)
• Dificuldades orais-motoras ou histórico de engasgos
• Hipersensibilidade sensorial (textura, cheiro, temperatura)
• Alergias ou intolerâncias alimentares, que fazem da comida um sinal de perigo
• Condições do neurodesenvolvimento, como o Transtorno do Espectro Autista
Causas comportamentais e ambientais
• Pressão para comer ou experiências negativas à mesa
• Uso de recompensas ou punições associadas à comida
• Ambientes caóticos ou com excesso de distrações (especialmente telas)
• Pouca exposição repetida e positiva aos alimentos
• Falta de rotina e previsibilidade nas refeições
• Excesso de alimentos ultraprocessados (guloseimas, macarrão instantâneo, fast food, salgadinhos, refrigerantes), que são hiperpalatáveis e alteram a percepção de sabor e a formação do paladar
Por que forçar a comer não funciona — e ainda atrapalha
Diante da recusa, é natural que o adulto tente insistir:
“Só mais uma colher.”
“Come para a mamãe ficar feliz.”
Mas a ciência é clara: forçar, pressionar ou barganhar não aumenta a aceitação alimentar. Pelo contrário.
Estudos mostram que a pressão para comer:
• aumenta a aversão ao alimento recusado
• reduz a capacidade da criança de reconhecer fome e saciedade
• associa a refeição a estresse e conflito
• pode piorar a seletividade ao longo do tempo
Ou seja, insistir pode até gerar ingestão momentânea, mas compromete a relação da criança com a comida no médio e longo prazo.
O caminho mais efetivo não é o controle — é a construção de segurança, previsibilidade e vínculo.
Estratégias práticas para ampliar o repertório alimentar com consistência
A seguir, algumas estratégias baseadas em evidência científica e na prática clínica, pensadas para caber na rotina familiar:
1. Exposição repetida, sem pressão
Dependendo da criança, um alimento pode precisar ser visto 15, 30, 50 vezes ou mais antes de ser aceito. Oferecer sem obrigar é fundamental para que ele deixe de ser percebido como ameaça.
2. Use a culinária como aliada
Cozinhar junto é uma das ferramentas mais potentes. Convide a criança para:
• higienizar alimentos
• rasgar folhas
• misturar, picar, descascar (dentro das suas habilidades)
• preparar receitas
• montar a mesa e o prato
Quando participa do preparo, o alimento deixa de ser estranho e passa a ser conhecido, previsível e pertencente.
3. Transforme a refeição em exploração, não em prova
Tocar, cheirar, lamber ou apenas observar também é comer no universo infantil. A exploração sensorial é uma etapa real do aprendizado alimentar.
4. Ofereça escolhas possíveis
Em vez de perguntar “você quer salada?”, proponha:
“Você prefere cenoura ou alface? Ou as duas hoje?”
Isso dá autonomia sem tirar do adulto o papel de condução.
5. Seja exemplo — com verdade
Crianças observam mais do que obedecem. Comer alimentos variados com prazer, sem discursos ou cobranças, ensina muito mais do que insistir.
6. Varie preparos e apresentações
O mesmo alimento pode ser aceito de formas diferentes: cru, cozido, assado, ralado, em pedaços grandes, em molhos, panquecas ou integrado a receitas familiares.
7. Cuide do ambiente da refeição
Evite telas, brinquedos e distrações. Um ambiente calmo ajuda a criança a perceber seus sinais internos e a se sentir segura.
8. Conte histórias sobre os alimentos
Histórias criam vínculo emocional. Falar sobre:
• a origem dos alimentos
• culturas e costumes
• cores, personagens e aventuras
Livros, narrativas lúdicas e conversas afetuosas aproximam a criança do alimento antes mesmo da prova.
9. Valorize o exemplo de outras crianças
Ver outras crianças comendo naturalmente é extremamente potente. Ambientes coletivos e refeições compartilhadas favorecem a aceitação por modelagem social positiva, não por imposição.
Quando procurar apoio especializado
Toda seletividade merece atenção. Quando não acompanhada, pode evoluir para dificuldades alimentares persistentes, comprometendo a qualidade da alimentação, o crescimento e o bem-estar da criança.
Em alguns casos, pode evoluir para quadros mais complexos, como o Transtorno Alimentar Evitativo-Restritivo (TARE/ARFID), que envolve medo intenso, restrição severa e prejuízos nutricionais e sociais.
Quanto antes houver orientação adequada, melhor.
No NaCaZinha, oferecemos um acompanhamento especializado e acolhedor, com um olhar ampliado para a criança, a família e o contexto alimentar. A seletividade não precisa ser enfrentada sozinha — há caminho, suporte e evolução possível.
A relação com a comida não se constrói em uma refeição, nem em uma semana.
Ela se constrói com paciência, presença, tempo e persistência.
Cada pequeno avanço importa.
Cada contato positivo conta.
E cada criança merece ser acompanhada com respeito ao seu ritmo e à sua história.
💛 Conte com o NaCaZinha para caminhar junto com sua família.
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