Colesterol na infância: o que é LDL/HDL, genética e alimentação

Entenda o colesterol na infância, LDL e HDL desde a infância: como genética e alimentação influenciam os níveis, quando rastrear, como cuidar e fazer escolhas que protegem o coração.

SAÚDE

Rachel Francischi

2/8/20266 min read

Nosso corpo usa colesterol para formar as membranas das células, produzir hormônios, vitamina D e substâncias que ajudam na digestão das gorduras.

O problema não é o colesterol em si, e sim quando ele circula em excesso no sangue, especialmente em uma forma chamada LDL. Esse excesso, mantido por muitos anos, aumenta o risco de doenças cardiovasculares como infarto e derrame.

Por isso, entender o colesterol é uma questão de saúde que começa cedo e acompanha a vida inteira.

LDL, HDL e o que significam “colesterol bom” e “ruim”

O colesterol não anda livre no sangue. Ele é transportado por partículas chamadas lipoproteínas. As principais são:

  • LDL (lipoproteína de baixa densidade) – conhecido como “colesterol ruim”. Quando está alto, tende a se depositar nas paredes das artérias, formando placas de gordura (aterosclerose), que dificultam a passagem do sangue.

  • HDL (lipoproteína de alta densidade) – chamado de “colesterol bom”. Ele ajuda a retirar o excesso de colesterol dos vasos e levá-lo de volta ao fígado para ser eliminado.

De forma simples:

LDL em excesso machuca os vasos. HDL ajuda a protegê-los.

O que é dislipidemia

Chamamos de dislipidemia qualquer alteração nos níveis de gorduras do sangue, como:

  • LDL alto,

  • HDL baixo,

  • triglicerídeos elevados,

  • ou combinação desses fatores.

Ela pode surgir por alimentação inadequada, sedentarismo, excesso de peso, mas também por predisposição genética. Muitas vezes a pessoa se sente bem e não percebe nada — por isso o exame é tão importante.

Genética: por que nem todo mundo responde igual

Uma das descobertas mais importantes da ciência é que as pessoas não reagem da mesma forma ao colesterol da dieta.

Nosso organismo controla:

  • quanto colesterol absorvemos no intestino,

  • quanto produzimos no fígado,

  • como empacotamos esse colesterol nas lipoproteínas,

  • e quão rápido removemos o LDL da circulação.

Esses processos são regulados por muitos genes. A nutrigenética já identificou dezenas de variações genéticas envolvidas no metabolismo do colesterol, incluindo genes ligados à:

  • absorção intestinal,

  • transporte nas lipoproteínas,

  • captação hepática do LDL,

  • esterificação e eliminação do colesterol.


Entre eles estão genes frequentemente citados na literatura, como APOE, APOB, ABCG5, ABCG8, CETP, LPL, entre outros. Cada um participa de uma etapa do caminho do colesterol dentro do corpo. O importante não é memorizar qual faz o quê, mas entender o conceito:

--> pequenas diferenças genéticas, somadas entre si, mudam a forma como cada pessoa lida com o colesterol.

Hoje, em vez de olhar um gene isolado, os estudos usam escores poligênicos, que reúnem dezenas ou centenas de variações para estimar o risco metabólico. Isso explica por que:

  • duas pessoas comendo parecido podem ter exames muito diferentes;

  • algumas são mais eficientes em compensar o colesterol da dieta;

  • outras são mais sensíveis e veem o LDL subir com mais facilidade.


É por isso que a nutrição moderna caminha para a personalização, e não para regras rígidas iguais para todos.

Colesterol da dieta x colesterol no sangue

Durante muito tempo se acreditou que comer colesterol aumentava diretamente o colesterol do sangue. Hoje sabemos que a relação é mais complexa.

O corpo humano produz grande parte do próprio colesterol. Quando a ingestão aumenta, o organismo geralmente tenta compensar diminuindo a produção interna. Por isso, em muitas pessoas, o colesterol dos alimentos causa apenas um aumento pequeno no LDL.

Além disso, estudos mostram que o maior responsável por elevar o LDL não é o colesterol da dieta, mas sim as gorduras saturadas, presentes principalmente em:

  • laticínios integrais,

  • manteiga,

  • queijos amarelos,

  • carnes gordas,

  • embutidos,

  • frituras.


Ou seja: muitas vezes o problema não é o alimento isolado, mas o padrão alimentar como um todo.

Ainda assim, em pessoas geneticamente mais sensíveis, o colesterol da dieta pode ter impacto maior — e aí a atenção precisa ser individualizada.

Ovo e colesterol: o que a ciência mostra hoje

O ovo é um dos alimentos mais discutidos quando o assunto é colesterol.

Uma gema contém cerca de 180 a 190 mg de colesterol, quase todo o limite diário recomendado para quem precisa controlar o LDL. Ao mesmo tempo, o ovo é nutritivo, fonte de proteínas, vitaminas e colina.

O que mostram as pesquisas?

Ensaios clínicos indicam que, em muitas pessoas saudáveis, o consumo moderado de ovos não provoca aumento relevante do risco cardiovascular.

Revisões mostram que o impacto do ovo depende do contexto da dieta: quando ele vem acompanhado de bacon, manteiga, queijos e frituras, o efeito sobre o LDL é muito maior.

Estudos recentes também mostram que existem “hiper-respondedores”, ou seja, pessoas cujo LDL sobe mais quando consomem colesterol da dieta.

Em resumo:
O ovo não é vilão universal, mas também não é neutro para todos. Em pessoas com dislipidemia, histórico familiar ou maior sensibilidade genética, a quantidade e a frequência precisam ser ajustadas individualmente.

Colesterol em crianças: começa mais cedo do que parece

Muita gente acha que colesterol alto é coisa de adulto, mas a aterosclerose começa silenciosamente na infância.

A Sociedade Brasileira de Pediatria recomenda:

Rastreamento universal

  • entre 9 e 11 anos,

  • e entre 17 e 21 anos.


Rastreamento seletivo
A partir dos 2 anos, quando há:

  • histórico familiar de infarto precoce,

  • colesterol alto nos pais,

  • obesidade,

  • diabetes,

  • hipertensão,

  • sedentarismo importante.


O objetivo não é medicar crianças, mas ajustar hábitos desde cedo: alimentação, movimento e rotina saudável.

E nos adultos?

A Sociedade Brasileira de Cardiologia orienta que:

  • adultos façam seu primeiro perfil lipídico por volta dos 20 anos,

  • repitam o exame a cada 4 a 5 anos,

  • ou com maior frequência quando existem fatores de risco.


O colesterol alto é silencioso, mas seus efeitos são cumulativos ao longo das décadas.

Quanto colesterol consumir?

De forma prática:

  • Adultos saudáveis: até 300 mg/dia.

  • Pessoas com colesterol alto ou risco cardiovascular: cerca de 200 mg/dia.

  • Crianças e adolescentes: em torno de até 300 mg/dia, com foco principal na redução de gorduras saturadas.


Mais importante do que contar miligramas é manter um padrão alimentar baseado em comida de verdade.

Exemplos de colesterol em alimentos

  • 🥚 Gema de ovo: ~185 mg

  • 🍤 Camarão (100 g): ~150 mg

  • 🍗 Pele de frango: ~90–100 mg

  • 🧀 Queijo amarelo (30 g): ~25–30 mg

  • 🥛 Leite integral (1 copo): ~24 mg


--> Uma única gema já quase atinge o limite diário de quem precisa controlar colesterol.

Atenção especial aos laticínios e frituras

Os laticínios integrais são duplamente problemáticos:

  • têm colesterol,

  • e são ricos em gordura saturada, que é o principal estímulo para elevação do LDL.


Incluem:

  • leite integral,

  • queijos amarelos,

  • manteiga,

  • requeijão,

  • creme de leite.


Somam-se a eles:

  • frituras,

  • embutidos,

  • pele de frango,

  • preparações muito gordurosas.

--> Esses alimentos costumam impactar mais o LDL do que o colesterol isolado do ovo, por exemplo.

Alimentos que ajudam a manter o colesterol saudável

Cuidar do colesterol não é só retirar — é construir um prato que ajude o corpo a se regular melhor.

Alguns grupos são especialmente protetores:

🍎 Frutas

Ricas em fibras e antioxidantes, ajudam a reduzir a absorção intestinal do colesterol. Frutas com casca e bagaço são ainda mais interessantes. Abacate e avocado oferecem gorduras boas que favorecem o HDL.

🥬 Verduras e legumes

Folhas, legumes e raízes aumentam o volume da dieta, fornecem fibras, fitoquímicos e ajudam o fígado e o intestino a eliminar melhor o excesso de colesterol.

🌱 Leguminosas

Feijão, lentilha, grão-de-bico, ervilha, soja, homus e tofu substituem carnes mais gordas e fornecem proteína com fibras, o que melhora o perfil lipídico.

🌾 Cereais integrais

Aveia, quinoa, arroz integral, milho e massas integrais oferecem fibras solúveis, especialmente a aveia, que ajuda a reduzir o LDL.

🌰 Nuts e sementes

Castanhas, nozes, amêndoas, chia, linhaça, gergelim e tahine fornecem gorduras insaturadas que favorecem o HDL e reduzem inflamação.

🐟 Peixes

Fontes de ômega-3, que protegem os vasos, reduzem triglicerídeos e contribuem para um perfil cardiovascular mais saudável.

🫒 Óleos bons

Azeite de oliva e óleo de linhaça no lugar de manteiga e frituras ajudam a modular o LDL e melhorar o equilíbrio das gorduras no sangue.

--> Esses alimentos não apenas “não pioram” o colesterol: eles ajudam ativamente o corpo a regulá-lo melhor.

Por que cuidar do colesterol é investir no futuro

Quando o LDL fica alto por muitos anos, ele se deposita nas artérias, formando placas que:

  • reduzem o fluxo de sangue,

  • aumentam o risco de infarto,

  • elevam a chance de AVC (ACIDENTE VASCULAR CEREBRAL).


O processo é lento, silencioso e começa cedo. Por isso, prevenir é muito mais eficiente do que tratar depois.

Conclusão — saúde também se aprende à mesa

O colesterol é essencial, mas seu excesso no sangue — principalmente de LDL — é um dos principais fatores de risco cardiovascular ao longo da vida.

A relação com a dieta existe, mas é modulada pela genética, pelo padrão alimentar e pelos hábitos desde a infância.

Ovo, laticínios, carnes e frituras não são vilões isolados, mas precisam ser consumidos com consciência, especialmente por quem já apresenta dislipidemia.

No NaCaZinha, acreditamos que saúde não nasce da proibição, mas da educação do paladar, da autonomia e do prazer em comer bem. Ensinamos crianças, jovens e adultos a se relacionarem com a comida de forma saudável e gostosa, valorizando a gastronomia, a experiência sensorial e escolhas que fazem bem ao corpo ao longo da vida.

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